Dra. Luísa Figueiredo – A Simplificadora do Direito

Perícia forense: escuta plural exige Freud, Lacan, Klein e Jung

Última revisão: 23/09/2026

Resumo

A perícia psicanalítica forense exige repertório teórico plural porque cada demanda judicial — dano moral, capacidade civil, guarda, nexo causal em adoecimento laboral — mobiliza estruturas psíquicas distintas. Freud oferece a topografia do inconsciente e a metapsicologia do trauma; Lacan, a leitura estrutural do sujeito e do discurso; Klein, o mapeamento das angústias primitivas; Jung, os complexos e a dimensão simbólica. Ignorar qualquer dessas ferramentas empobrece a escuta e fragiliza o laudo.

Perícia forense: escuta plural exige Freud, Lacan, Klein e Jung

A perícia psicanalítica forense exige repertório teórico plural porque cada demanda judicial — dano moral, capacidade civil, guarda, nexo causal em adoecimento laboral — mobiliza estruturas psíquicas distintas. Freud oferece a topografia do inconsciente e a metapsicologia do trauma; Lacan, a leitura estrutural do sujeito e do discurso; Klein, o mapeamento das angústias primitivas; Jung, os complexos e a dimensão simbólica. Ignorar qualquer dessas ferramentas empobrece a escuta e fragiliza o laudo.

Por que a perícia forense pede escuta plural?

O ambiente forense é, por natureza, interdisciplinar. O psicanalista chamado como perito, assistente técnico ou parecerista atua na fronteira entre direito e saúde mental, produzindo documentos que subsidiam decisões judiciais sobre liberdade, patrimônio, filiação e reparação. A legislação em saúde mental brasileira — especialmente a Lei 10.216/2001 e as normas que regulam direitos do paciente em saúde mental — cobra do profissional rigor técnico e clareza argumentativa.

Nesse cenário, adotar uma única lente teórica como se fosse suficiente para todos os casos é um erro metodológico. A responsabilidade jurídica na saúde mental do perito é grande: laudos mal fundamentados podem gerar nulidades, recursos e responsabilização ética. A ética profissional em saúde mental aplicada à perícia exige que o técnico reconheça os limites de cada modelo e escolha a ferramenta adequada ao caso concreto.

O que cada tradição oferece à escuta pericial?

  • Freud fornece o vocabulário fundante: recalque, retorno do recalcado, mecanismos de defesa, elaboração e o conceito clínico de trauma — essenciais em casos de assédio, acidente de trabalho e adoecimento por sofrimento psíquico sob a NR-1.
  • Lacan contribui com a leitura estrutural (neurose, psicose, perversão) e a análise dos discursos institucionais, útil quando o perito precisa entender como o sujeito se posiciona diante da lei simbólica e da lei jurídica.
  • Klein ilumina relações objetais precoces, angústias persecutórias e mecanismos como identificação projetiva — indispensáveis em disputas de guarda, avaliações de alienação parental e análise de dinâmicas familiares.
  • Jung oferece a leitura dos complexos, das imagens simbólicas e da individuação, particularmente valiosa em contextos de crise existencial adulta, luto complicado e ritos de passagem interrompidos.

Como o pluralismo teórico fortalece o laudo pericial?

Um laudo pericial robusto precisa sustentar suas conclusões diante do contraditório. Quando o perito domina múltiplos referenciais, ele pode integrar observações, triangular hipóteses e fundamentar diagnósticos descritivos — nunca no sentido classificatório rígido, mas como leitura clínica orientada à demanda judicial.

A análise jurídica da saúde mental contemporânea, incluindo a jurisprudência em saúde mental consolidada pelo CNJ e pelo STF em temas como internação involuntária e capacidade civil, reconhece que o adoecimento psíquico é multideterminado. A doutrina jurídica aplicada à saúde mental também caminha nessa direção: laudos monolíticos são cada vez mais questionados em audiências de instrução.

Onde a pluralidade evita erros técnicos?

Casos de judicialização da saúde mental frequentemente envolvem históricos complexos: um pedido de auxílio-doença por transtorno decorrente de assédio moral pode exigir, ao mesmo tempo, a leitura freudiana do trauma repetitivo, a análise lacaniana da posição do sujeito no discurso da empresa e a compreensão kleiniana das ansiedades reativadas. Reduzir tudo a uma escola é, na prática, produzir uma leitura parcial — e parcialidade técnica compromete a segurança jurídica no cuidado.

Do ponto de vista da bioética e saúde mental, o pluralismo também protege o periciando. O sigilo profissional na saúde mental e o consentimento informado em saúde mental ganham densidade quando o perito compreende, a partir de múltiplos ângulos, o que o sujeito consegue efetivamente consentir e o que precisa ser preservado no relato ao juízo.

Quais são os limites éticos da atuação pericial plural?

Pluralismo não significa ecletismo desordenado. Os limites éticos na prática clínica aplicados à perícia impõem: (i) transparência metodológica — o perito declara os referenciais que utilizou; (ii) coerência interna — as conclusões derivam logicamente das premissas; (iii) respeito à dignidade do paciente e à autonomia do paciente, mesmo em contexto compulsório.

A conduta profissional em saúde mental no âmbito forense também exige que o perito não invada o papel do julgador. Cabe ao psicanalista descrever, analisar e opinar tecnicamente; cabe ao magistrado decidir. Essa separação, garantida pelas normas legais em psicoterapia e pelas orientações do CFP, é o que sustenta a proteção jurídica do paciente e as garantias legais na saúde mental.

Como se preparar tecnicamente para essa atuação?

Formação continuada é o caminho. O estudo comparado dos autores fundadores, a leitura de casos clínicos publicados em bases como SciELO e PubMed, o acompanhamento das diretrizes da OPAS e do Ministério da Saúde e o debate em espaços de produção acadêmica em direito e saúde mental compõem o repertório mínimo do perito contemporâneo.

A Academia Enlevo trabalha nessa linha formativa: propõe um método de estudo pluralista que apresenta Freud, Lacan, Klein e Jung como ferramentas complementares, com aplicação clínica e forense. Esse tipo de itinerário, associado a registros técnicos como os do RNTP — Registro Nacional de Terapeutas e Psicanalistas, contribui para a organização documental e a rastreabilidade da formação do profissional que atua em contextos periciais.

Conclusão: escuta plural como padrão técnico

Defender o pluralismo teórico na perícia psicanalítica não é relativizar escolas — é reconhecer a riqueza de cada uma e reservar a cada demanda o instrumento mais adequado. Em um cenário de crescente regulação da saúde mental, de refinamento da jurisprudência em saúde mental e de exigência técnica cada vez maior nos laudos, o perito que domina múltiplos referenciais entrega decisões mais bem fundamentadas ao Judiciário e, sobretudo, mais justas ao periciando.

O modelo integrativo é, hoje, o padrão legal e ético da saúde mental aplicada

Aviso importante

Conteúdo informativo e educacional, sem substituir avaliação profissional individualizada.